AMIZADE: CAMINHO DE AUTOCONHECIMENTO, CURA E EVOLUÇÃO.

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Observando-nos com foco nas nossas interações com o mundo, podemos observar que, nós, os humanos, somos seres sociais. A nossa natureza de buscar e depender das interações e relações com outros indivíduos é natural e causa da nossa sobrevivência e perpetuação da nossa espécie.

Ainda que nos tempos atuais de crescente isolamento físico, no que diz respeito às nossas relações e interações sociais, em poucas décadas nossas interações sociais romperam os limites familiares e locais e se projetaram globais.

Desenvolver-se enquanto indivíduo, idealizar e alcançar a própria felicidade, vivenciar a plenitude humana de ser só se revela no/ao encontro do outro.

Platão, filósofo que explorara a natureza da amizade humana, no ensaio “O Banquete”, pontua: “nenhum de nós é inteiro se não for pelo laço com o outro”.

De fato, até a ideia do nosso próprio eu só é possível ser construída a partir da contribuição/espelhamento obtido dos outros.


Ao reconhecermos a essencialidade das relações humanas para as nossas vidas nos abre caminho para aprofundarmos nas nossas relações mais próximas, íntimas, duradouras, e considerarmos quão importantes à nossa breve jornada de vida na Terra.


Todas essas relações são presenças, ausências, vidas que sendo vividas influenciam nas nossas vidas e opiniões — e, em sempre em algum grau, moldam — quem somos, como nos sentimos e, por assim dizer, como vivemos as nossas vidas.

Daí, a importância de reconhecermos em nosso círculo mais íntimo as relações que são de amizade e, quais, em um olhar de autocuidado, se revelam apegos a relações de toxicidade emocional, não colaborativas ou sabotadoras da nossa jornada evolutiva existencial.


A amizade colaborativa na autoconstrução e evolução de quem somos é o tipo de vínculo que transcende utilidade e prazer, sendo porto seguro de autoconhecimento com base na aceitação recíproca do outro.

Inconscientes desta importância e potência das relações íntimas na nossa própria condição experiencial de vida, muitas vezes, tratando superficialmente as nossas relações, nos expomos relações que, por certo, melhor observada, os atos não refletem as palavras e, ambos, tende-se a assim perceber – nos escapando se involuntariamente-, nos ferem emocional e psicológicamente.

E, saiba, se há dor, há trauma. Uns são da vida, outros; não merecemos. Todos, nos moldam enquanto ser agente e reagente ao mundo interno e externo. Influenciam, alteram, determinam, a nossa experiencia chamada vida.

Portanto, quais as relações ainda merecem a amizade da pessoa mais importante da sua vida, você mesmo?

Vc tem sido sua amiga tanto quanto tem sido amiga de outrem?

Vc tem amizades perfeitas? Por que as exige, se você não é?

Montaigne exemplifica a singularidade da verdadeira amizade ao dizer: “Se me perguntarem por que eu o amava, sinto que só posso responder: porque era ele, porque era eu.”.

Aristóteles, em sua “Ética a Nicômaco”, registra: “A amizade perfeita é a dos bons, daqueles que se assemelham pela virtude. Eles querem o bem um do outro pelo que são, e não pelo que podem proporcionar.”



Não raro, uma única relação tóxica que se supõe necessária ou amistosa foi causa de marcante memória de dor moral e emocional, mas, que não fora percebida em sua total potencia nociva ou ao tempo que sofrida, por se tratar de “fogo amigo”.

Tampouco, o que sentimos pertence apenas a nós ou ao outro: a história é construída a várias mãos, que agem segundo vários pontos de vistas, que, por sua vez, veem, por meio, de várias personalidades, inclusive com a nossa própria. O sentimento de decepção moral nasce, muitas vezes, da surpresa inevitável de perspectivas distintas — quase nunca há encontro de versões.

Há quem ajude, quem atrapalhe, quem observe de longe. Todos, de alguma forma, participam dos momentos de alegria e potência ou de vulnerabilidade psicológica e socioafetiva; contudo, neste contexto, estamos severamente expostos.
Por outro lado, vivemos tempos caóticos, polarizados e de ansiedade pandêmica, e as mentes humanas se vêem hiperativas e superalimentadas por informações incessantes e aleatórias.

Antes mesmo de refletirmos sobre, a mente se defende determinando o imediato “arrasta”, deslizando os dedos na tela para a próxima “dose de ilusão”, reagindo de forma automata e apática. A cultura dos likes contribui para um vazio relacional e aprofunda a pandemia de ansiedade que afeta todos os povos ditos “civilizados”.

Entre o caos global e o torpor privado, tentamos nos equilibrar em busca de identidade e, se possível, de alguma felicidade. Ser humano nunca foi fácil — como talvez notasse um observador extraterrestre fascinado por nossa espécie.

A superficialidade alimentada por interações digitais ameaça o espaço do vínculo genuíno. O sociólogo Zygmunt Bauman alerta, em “Amor Líquido”: “Relações humanas estão cada vez mais frágeis… Amizades profundas são raras.”
Nessa relação cada vez mais “cibernética”, os nossos relacionamentos estão em uma tela fria em uma imagem distante das realidades.

Um dos maiores obstáculos à realização são os relacionamentos tóxicos. Em contrapartida, os laços sadios potencializam a vida, promovendo respeito verdadeiro, apoio e o reconhecimento de nossas virtudes.

Como escreveu Santo Agostinho: “Sem amigos ninguém escolheria viver, ainda que possuísse todos os outros bens.”
Nesse sentido, amizade é via de ascensão, partilha e sentido existencial.

Mas, se temos inúmeros exemplos de relações de toxicidade; poucas, de verdadeira amizade. A verdadeira amizade, como dito alhures, não se baseia no prazer que o amigo proporciona, isso é utilidade, conveniência, necessidade (carência), não amizade.

Uma ótima ao revisitarmos a trajetória de Stephen Hawking, percebemos o poder das relações compassivas de amizade.

Diante da sua incapacidade física, a sua genialidade mental não aproveitava diretamente aos seus relacionamentos íntimos (esposa e amigos); inobstante, por reconheceram nele um ser humano completo, para além do cientista brilhante.

Hawking experimentou o ápice na carreira sobretudo porque as suas relações lhe proporcionaram suporte e condições de transformação do físico em celebridade mundial e mudar os rumos da ciência cosmológica mundial.

Por contraste, fosse ladeado por relacionamentos tóxicos, potencialmente seria abandonado, desencorajado ou tratado como digno de pena em detrimento da presença, respeito e suporte amistosos.

Portanto, proponho a auto indagação: Quem permaneceria importante para você se a vida restringisse seus movimentos ao mínimo meio-sorriso? Essa reflexão, embora desconfortável, revela quem são nossos verdadeiros amigos.

É fundamental o distanciamento elegante e honesto daqueles que nos demonstram inegável toxicidade, seja no abandono diante do sofrimento, seja na recusa em nos aceitar na autenticidade do ser, seja ao sempre nos tecer uma crítica depreciativa e desestimulante.

Não se trata de quem deseja que mudemos para melhor; mas, quem, com a sua amizade, nos torna melhores. Mudar para agradar aos outros é abdicar de si, do seu processo evolutivo, um suicídio da alma. O caminho do autoconhecimento é escolher viver de modo autêntico, amando-se, primeiro, agora, quem somos, no presente, o único tempo realmente existente.

Os relacionamentos baseados no apego àqueles que com uma “isenção” reforçam nossos traumas e crenças limitantes também se demonstram eivados de toxicidade.

Feridas emocionais mal tratadas podem gerar sequelas, dificultando satisfação genuína em futuras relações e recriando padrões prejudiciais por gerações. Nos momentos de crise, é comum nos apegarmos a quem agrava nossas dores e negatividades da mente.

Compassividade nada tem a ver com passividade.
C.S. Lewis esclarece o valor dos laços profundos: “A amizade nasce no momento em que uma pessoa diz para outra: ‘O quê! Você também? Pensei que eu fosse o único’.”

Na ausência desse reconhecimento mútuo florescem os vínculos tóxicos; na sua presença, cultivam-se laços de cura.

A toxicidade não está restrita ao campo afetivo-romântico; devemos mapear todas as relações pessoais, sociais e institucionais que vivenciamos. Pode manifestar-se entre familiares, amigos e colegas de trabalho.

Aqui, a proposta é desenvolver consciência e compaixão.
Joanna de Ângelis, mentora espiritual, ensina: “A amizade é o laboratório ideal para a aprendizagem do amor, da solidariedade e da compaixão.” A amizade autêntica não julga; te defende do peso da sua sentença de condenação que, a priori, apressamo-nos em autoimpor. Só um amigo poderá exercer esse mister de nos defender do nosso maior inimigo. O nosso próprio julgamento.



Essa reflexão nasce da experiência pessoal de quem compreendeu que são as relações autênticas, compassivas e abertas ao compartilhamento de experiencias que transformam a dor em aprendizado, sofrimento em autocompaixão, escassez em gratidão, rancor em perdão.

Mesmo nas dores mais profundas, encontramos sementes de crescimento e autoconhecimento. Cada experiência, por mais desafiadora que seja, nos oferece a oportunidade de nos tornarmos mais fortes e compassivos. A verdadeira amizade começa quando nos permitimos ser vulneráveis, mostrando quem realmente somos, sem medo de ser ferido por quem amamos.

A Amizade, portanto, é o caminho essencial, insubstituível para que haja amadurecimento emocional e espiritual enquanto, juntos, empreendemos a desafiante jornada humana.

Convido você a refletir sobre suas próprias amizades. Quais delas te fortalecem e quais te desafiam? Compartilhe suas experiências e aprendizados com alguém próximo. Ao abrir seu coração, você não só se cura, mas também inspira outros a fazerem o mesmo.

Essa conexão viva, de amor-próprio em ricochete ao próximo, há unidade de almas evocando a presença de Deus.

O milagre da existência universal única está na existência única do outro. Na celebração do bem viver do próximo se manifesta a gratidão a Deus pelo bem viver, no aqui, no agora, que todos, por existirmos, merecemos..

Autor: André Freddo,
Maio de 2025.

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